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A música no Cinema e na vida

Quinta-feira, 21.01.10

 

Quantas vezes não é uma música que nos salva?, que nos anima?, que nos vem lembrar que ainda há surpresas à nossa espera?

Alguns sons, uma voz, e voltamos a esse lugar mágico! Uma claridade que não sabemos definir. Deve ser a nossa própria claridade que transportamos connosco, mas de que nos esquecemos até alguma coisa nos lembrar o essencial de nós.

A música é uma delas. Uma coisa essencial.

A primeira coisa que conhecemos é um som ritmado, o som de um coração que bate. Embala-nos desde o início. Os sons e as sensações. Só depois abrimos os olhos.

 

Em muitos momentos determinantes da minha vida a música esteve sempre presente. Acompanhou-me de perto, de muito perto. Como se marcasse o ritmo dos meus pensamentos, a minha respiração. Como se marcasse as cenas do filme em que se foi tornando a minha vida, às vezes David Lean, às vezes Frank Capra, mas também às vezes Woody Allen (embora eu o contrarie)... Só espero é que o Ingmar Bergman nunca me apanhe...

 

O Cinema sempre entendeu a importância da música porque desde o início se fez acompanhar por ela. E logo desde o início, antes do sonoro.

Com a música as cenas adquirem outra intensidade e também outra densidade.

Há algumas músicas de filmes que me fascinaram desde logo e que ainda são as minhas preferidas. Como estão ligadas aos filmes, irei falar de cada uma em próximos posts.

 

Hoje é só para lançar este desafio:

Quando virem ou revirem Immortal Beloved, sobre a vida atribulada de Beethoven, reparem na importância da música como expressão da agitação interior e dos sonhos originais, que aqui permanecem vivos, apesar do sofrimento, da solidão e da decadência.

Beethoven é um exemplo comovente de um génio que ultrapassa a maior limitação de todas para um compositor: a surdez prematura. No seu caso, as notas musicais são mentais. As suas últimas composições já não lhe eram acessíveis: ouvia-as mentalmente. É esta a dimensão do seu génio. 

Mas Beethoven também ultrapassa a pior limitação de todas: a ausência de paixão. A paixão está ainda viva nas suas composições, mesmo perto do fim. 

Reparem bem nessa correria da criança ao som do Hino à Alegria, nessa noite de estrelas, a fugir da violência paterna e a encontrar refúgio no reflexo universal de mil pontinhos luminosos, nesse lago muito quieto.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:43

Esta comunidade blogosférica em expansão...

Quarta-feira, 20.01.10

 

Esta madrugada tinha preparado um post sobre a música no cinema quando fui surpreendida por esta amabilidade da Equipa do Sapo: colocaram Martin Scorsese, nos Globos de Ouro 2010, a navegar...

Desde o início que me senti acarinhada por esta equipa que tem divulgado os blogues mais diversos nesta grande comunidade. 

E todos sabemos como é gratificante comunicar na nossa própria língua com muitos outros bloggers, trocar ideias, participar, argumentar ou simplesmente, encontrar afinidades.

Já vos deve ter acontecido sorrir ao ver destacado um blogue vosso conhecido, ou ao descobrir mais uma surpresa blogosférica.

 

Há blogues que se transformaram numa casa acolhedora, com biblioteca e tudo, onde os amigos se encontram e trocam informações e ideias, de forma descontraída.

Noutros, encontramos livros e filmes que desconhecíamos...

E há blogues que são jardins... e outros, museus e galerias...

Há ainda os filosóficos, os das ciências sociais, os de economia, os políticos...

Uns sóbrios, outros, provocadores...

E há os poéticos, os que falam da vida, pensamentos e sentimentos, as nossas narrativas ocultas.

Ainda muito por descobrir nesta blogosfera em expansão...

 

Mas o melhor da blogosfera, a meu ver, e desta comunidade, é a possibilidade de sermos surpreendidos, desafiados, animados, inspirados.

À Equipa do Sapo, a minha gratidão por mais esta surpresa, e o desejo que continue o seu óptimo trabalho de informação e de divulgação de blogues, desta comunidade em expansão.

 

 

 

Leituras relacionadas: Um breve esboço sobre a blogosfera no Vozes Dissonantes. Aí vai: Quem tem medo da blogosfera? , Quem tem medo da blogosfera?(cont) e Quem tem medo da blogosfera?(conclusão?)

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:38

Do Tempo das Descobertas: Leitura portátil

Terça-feira, 19.01.10

 

Do Albergue Espanhol este post de Luís Naves sobre livros e filmes, neste caso de ficção científica mas que, no fundo, nos levam sempre ao essencial da natureza humana e do seu destino.

 

" Leitura portátil

 

por Luís Naves 

O fim da Humanidade

A literatura tem extensa tradição de histórias pós-apocalípticas, sobretudo no género da ficção científica, mas há exemplos clássicos de relatos sobre a deambulação desesperada de personagens por mundos em colapso e paisagens desoladas. A crueldade das guerras deve ter produzido as primeiras referências, mas a destruição da humanidade é um mote mais recente. Nos cinemas está ainda em exibição um óptimo filme sobre o tema, A Estrada (na imagem), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy. [Ficamos na dúvida sobre a causa do apocalipse, mas os incêndios florestais a posteriori fizeram-me pensar na hipótese de asteróide].
O cinema adora este assunto (Mad Max, Waterworld) e já existe a tecnologia para o explorar. Na literatura, o tema terá aparecido com os românticos, mas foi usado por autores difíceis de classificar (Jack London, por exemplo).
Jules Verne e H. G. Wells exploraram o filão, que se tornou típico da literatura de imaginação científica. Mas a grande explosão de histórias surgiu no tempo da Guerra Fria, quando a destruição do planeta era uma possibilidade que não levaria mais do que alguns minutos de decisões erradas.
Há apocalipses de vários tipos, das invasões à doença. Dois livros famosos exploraram a destruição civilizacional criada pela cegueira súbita da humanidade: O Dia das Trífides, um sci-fi do britânico John Windham; e outro mais recente, Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, onde se imagina um mundo pós-apocalíptico parecido com um campo de concentração.
Quando eu era miúdo e devorava livros da colecção Argonauta, gostei especialmente de um romance muito imaginativo, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr. É também uma notável reflexão sobre a religião, a força dos dogmas e a teimosia humana. Miller era sobretudo um autor de contos e surge exactamente neste formato um dos textos mais devastadores que já li sobre distopias pós-apocalípticas. Chama-se Lot, é da autoria de um obscuro jornalista e escritor americano, Ward Moore, que para a posteridade deixou
esta história de uma dezena de páginas. Há um conto semelhante, de Júlio Cortazar, A Autoestrada do Sul que deu origem a um filme de Godard, Weekend; mas Lot também inspirou filmes (parece que nem pagaram direitos ao autor, limitando-se a roubar a ideia).
E que ideia é essa? Moore imagina uma ameaça (talvez uma guerra nuclear) e um homem menos que banal, que tem um plano de fuga da sua família. Esta corrida para a segurança prevê passos intermédios, incluindo chegar a determinada autoestrada em certa quantidade de minutos, levar apenas o essencial no carro, sacrificar o cão, escapar aos engarrafamentos de tráfego, por aí fora.
Seguimos o protagonista e os seus cálculos cada vez mais mesquinhos; a acção acelera, à medida que a condução fica mais brutal; a família discute; o mundo torna-se alucinante, enquanto a fuga avança e o tempo escasseia. Mas o leitor não está preparado para o final da história, que me parece ser um monumento literário sobre a natureza humana, no que ela tem de primitivo e, apesar de tudo, de complexo e impiedoso. Em Lot, o golpe de asa está no desenlace tão lógico que só podia ser aquele. Pelo contrário, em A Estrada é um final mole que desilude e enfraquece uma ideia que tem dado pano para mangas. 
"

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:34

Amar o Cinema: Martin Scorsese

Segunda-feira, 18.01.10

 

Raramente veremos alguém tão inflamado e transfigurado como Martin Scorsese quando fala de Cinema e dos grandes cineastas do séc. XX. Desta vez foi nos Globos de Ouro 2010 que vi ontem até às tantas.

É realmente enternecedor ver este homem baixinho, de óculos enormes, entusiasmado com o trabalho de restauro dos filmes de Cecil B. DeMille. É esse lado apaixonado pelo Cinema que eu mais aprecio em Scorsese, embora lhe reconheça um enorme talento. Aquele Taxi Driver... o New York, New York... A Cor do Dinheiro... A Última Tentação de Cristo... o comovente Kundun... E, mais recentemente, O Aviador...

Mas no seu trabalho de divulgação do Cinema, do cinema-arte, Scorsese é único! O seu documentário A Personal Journey With Martin Scorsese Through American Movies (1995), por exemplo é, em si mesmo, uma verdadeira obra-prima! Gravei a série, que passou na televisão, quando a RTP2 era um oásis cultural.

Só pelo seu breve discurso sincopado - Scorsese fala aos tropeções, muito rapidamente -, quando foi ao palco receber o Prémio, valeu a pena assistir à cerimónia até ao fim. O Prémio Cecil B. DeMille aqui aplica-se muitíssimo bem!

Também gostei de ver em palco Robert de Niro e Leonardo di Caprio a apresentar o amigo Scorsese e a entregar-lhe o Prémio. Foi um dos momentos mais autênticos e genuínos, de uma cerimónia muito artificial, e apresentada por um humorista inglês sintonizado com a superficialidade de um certo humor americano. 

 

De resto, gostei do breve discurso do realizador alemão Michael Haneke.

E gostei de ver a elegância de Jessica Lange, a destacar-se claramente das outras mulheres. A diferença não estava apenas no vestido, impecável - havia alguns outros vestidos originais -, mas na pose sóbria e amável.

Também gostei de ver na assistência um George Clooney completamente absorvido na causa do Haiti.

 

Tenho falado aqui de paixão e de energia vital. No meu caso, já devem ter reparado que o meu discurso muda logo quando me dedico ao cinema, aos livros ou a outras vozes que descubro na blogosfera.

Hoje a minha descoberta é esta grande surpresa: a amável Equipa do Sapo destaca as_coisas_essenciais. Obrigada. Esta é já uma grande família de bloggers a criar e a comunicar, a reflectir e a trocar ideias.

Que quem por aqui passe se sinta bem recebido, pois n' as_coisas_essenciais há sempre um lugar para todos os viajantes.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:08

Do Tempo das Descobertas: Uma má decisão nunca vem só

Segunda-feira, 18.01.10

 

Do blogue Lavandaria, este post sobre uma má decisão, numa visita a Greenwich que, por sua vez, faz parte de uma saga atribulada e divertida.

 

" Uma má decisão nunca vem só

Aspecto bucólico da zona de Greenwich onde se vai realizar o concurso hípico nos Jogos Olimpicos de 2012

 

Uma má decisão nunca vem só. Se não se revelou grande espingarda viajar até Greenwich quando o Sol já brilhava alto na Austrália, também não foi acertado desembarcar do DLR na segunda estação de Greenwich.

Eu passo a explicar. Das primeiras vezes que viajei no DLR, ele acabava o seu percurso em Islands Gardens, do lado de cá do rio, que posteriormente atravessava a pé, percorrendo depois um túnel (bem mais calmo e seguro que o dos nossos estádios de futebol) até à outra margem, emergindo em Greenwich,  junto a um belo cotovelo do Tamisa, ali onde o velho Cutty Sark está fundeado.

As coisas mudaram muito, no entretanto. O Cutty Sark ardeu (mas está a ser reconstruído, espero que não só veleiro mas também a inolvidável colecção de figuras de proa que albergava no seu bojo). O DLR viu a sua rede muito ampliada e foi dotado de um túnel para vencer o Tamisa. E Greenwich passou a ser servido de duas estações de metro.

O acertado para mim teria sido sair na primeira, junto ao Cutty Sark, já que estou habituado a abordar a localidade que se celebrizou por nos dar a hora (o famoso TMG-Tempo Médio de Greenwich) a partir da margem do rio.

Optei por sair na segunda, a sul do centro e dei por mim, à noite, sem referências, a chover, num subúrbio deserto de uma pequena cidade engolida por Londres algures no seu processo de engorda e transformação numa mega-metrópole. 

As luzes de um pub foram o farol que nos anunciou a salvação para nós, náufragos, por causa de uma decisão desadequada como ir ler A Bola para um café cheio de portistas.

Greenwich, inicio da noite de 4 Dezembro 2009  "

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 14:10

Sobre vidas paralelas: Grace Kelly

Domingo, 17.01.10

 

Hoje senti pela primeira vez a antecipação da primavera. A deste ano, ainda não é a tal primavera. Mas quem sabe, teremos de ser nós a inventar a nossa primavera. O sol apareceu, primeiro timidamente, mas agora inunda tudo, numa luz muito branca.

O que tem isto a ver com o título do post? Tudo.

O que nos leva a determinadas escolhas nas nossas vidas? Escolhas que determinam a sequência do nosso filme e, por vezes, de forma assim definitiva?

Nunca aderi à noção de destino ou pré-determinação genética (se bem que alguns estudos de gémeos idênticos sejam verdadeiramente impressionantes), mas há tendências para esta ou aquela opção de vida, para a tristeza ou para a alegria, para a auto-preservação ou para a auto-destruição, até para a alienação, a fuga.

 

Pensei em Grace Kelly porque a vi ontem, num filme não muito interessante, mas ainda assim com cenas de uma força emotiva impressionante: The Country Girl. Habituados a vê-la sempre elegante, impecavelmente vestida, numa pose perfeita, ficamos surpreendidos por vê-la aqui mal vestida, como se isso fosse impossível. Grace Kelly conseguiu ser convincente neste filme na pele da mulher leal de um alcoólico a tentar pôr-se novamente de pé. Para minha grande surpresa, escolhe ficar, apesar de se ter apaixonado pelo homem que lhe salvara o marido da decadência inevitável. E que par teriam feito Grace Kelly e William Holden...

Também convincente na cena em que vai esperar o marido ao teatro e pisa o palco: Consigo entender a magia de um teatro vazio... Não pude deixar de imaginar o que teria pensado Grace Kelly, muitos anos depois, ao ver-se privada do palco, do teatro, do Cinema... nessa prisão dourada que foi a sua vida como princesa do Mónaco. Teria lamentado a sua escolha determinante?

Se pensarmos nas possibilidades que se lhe abriam como actriz naquela época, esse papel de princesa, que assumiu na perfeição, não a podia preencher. O mundo fechado desse pequeno principado e a artificialidade desses rituais, não condiziam com a autenticidade das emoções da representação... por isso aquela sua frase no palco me impressionou tanto...

O seu olhar já não é o mesmo, mesmo nas épocas mais felizes, nessas fotografias de família em jardins bem arrumados. Não sei se lamentou essa escolha definitiva, mas tenho quase a certeza que sentiu a falta dessa respiração do Cinema, dessa magia do palco, dos colegas, dos amigos, da vida cultural americana...

 

Conheci na minha vida esse embaciar do olhar, a desistência dos sonhos, e digo-vos, é o pior que pode acontecer a alguém, perder a paixão. Seja pelo que for, mas não deixem morrer a paixão nas vossas vidas!

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:47

Do Tempo das Descobertas: Janeiro no jardim

Quinta-feira, 14.01.10

 

Da minha quinta preferida, a Quinta do Sargaçal, este post sobre algumas coisas essenciais. Que melhor forma de iniciar um novo ano?

 

 

"  Janeiro no jardim

Alfazemas recentemente envasadas
Aproveitei a aberta na chuva para podar a Glicínia. Senti-me mais à vontade e foi mais rápido que nos outros anos. A ver que flores dá. Certos ramos tive de cortar mais radicalmente porque pendiam para a rua.
Depois montei um estufim que tinha por aqui. Parece uma tenda canadiana e se me lembro, a primeira vez que o montei há anos, voou pelos ares. E ficou guardado até este Sábado, com os tubos meio torcidos. Montar sem instruções demorou tempo e não entendi a necessidade de tubos com tantos tamanhos diferentes. Em vez de quatro tamanhos eu fazia o mesmo com um tubo genérico para todas as partes. Mas pronto, está montado.
Guardei lá dentro umas jovens plantas designadamente os Gerânios madeirenses, que infelizmente já tinham caído pelas escadas abaixo. Ou vento, ou cão, sendo este último o meu principal suspeito. Mas como foi nos dias de tempestade, dei-lhe o benefício da dúvida.

Estufim
Também o que chegou do Viveiro dos Rosmaninhos, porque quero ver se tenho sucesso com as alfazemas — é o meu desejo pelo menos. Além das 70 pequenas plantas envasadas, vieram muito mais do que eu pensava em torrão (mais que simpática oferta). O problema é que com a colecção de Sempre-vivas, os vasos de plástico que eram aos montes, agora são muito poucos. Aliás, agora de tamanhos pequenos não há nenhum.
Conclusão, como as plantas são mesmo pequenas e o torrão é de um alvéolo mesmo diminuto, socorri-me dos tabuleiros Rootrainers, que vão permitir as plantas passarem a próxima fase de desenvolvimento. Depois logo verei como se comportam antes de passar para os vasos ou locais definitivos. Mas tudo somado, julgo que já envasei umas 130 plantas (umas 70 em Rootrainers o resto em vasos). Devem faltar umas 60-70 e vou tentar acabar isso amanhã porque daqui a pouco faz uma semana que estão fora da terra.  "


 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:34

A nossa verdadeira riqueza

Quarta-feira, 13.01.10

 

Continuando esta análise do país e de como recuperar a nossa identidade e dignidade:

Como referi, a primeira qualidade de ser rico é a autonomia: poder organizar as nossas vidas.

Quando me refiro aqui a autonomia refiro-me essencialmente à autonomia dos cidadãos, dentro do possível, e à autonomia da economia, a que cria riqueza. Que neste momento revela poucos sinais de vida.

Sem dúvida que negociámos parte da nossa autonomia, a começar pela económica, com a integração europeia. Mas há inegáveis vantagens nessa interdependência. Não apenas económicas (se houver inteligência para isso), mas sobretudo políticas.

 

A nossa verdadeira riqueza está na capacidade de criar e expandir. E noutra capacidade, tantas vezes esquecida: capacidade de empatia, de relacionamentos saudáveis e estáveis, de relações de confiança.

Aplicada ao país, a confiança adquire uma outra dimensão: sem relações de confiança, de expectativas concretizáveis, de lealdade, de equilíbrio,  a economia estará seriamente comprometida. A base da economia saudável está na coesão social, na confiança.

Confiança nas instituições, nas empresas, nos elementos-chave de uma sociedade. Sem essa condição básica não há economia que sobreviva.

 

E sobretudo a base, o essencial: a energia vital. O brilhozinho nos olhos, o entusiasmo, I'm alive. Ontem, no Boston Legal, a personagem Alan Shore ficou arrumado quando uma ex-namorada por ele abandonada, lhe diz, cheia de ressentimento: Os homens quando envelhecem perdem a paixão... Os teus olhos estão mortiços... Alan Shore só recupera desta frase mortífera quando, em conversa com o amigo, Denny Crane, que também com ele partilha o seu maior pavor (vejam a série se quiserem saber) o ouve dizer com amizade: Ela ainda não te viu em tribunal, aí tu transformas-te! Não, tu não perdeste a paixão! E, de facto, o nosso Alan Shore transfigura-se, é com verdadeira paixão que defende a queixosa e será com tristeza que se despede no final da ex-namorada e é tristeza que verá nos seus olhos também, e já não ressentimento.

 

Isto para dizer o quê? Que além da confiança mútua, nos grupos, nas comunidades, nas instituições, a nossa maior riqueza é a paixão, essa energia vital que nos move, que nos anima. É, por isso, muito preocupante, ler em jornais ou em blogues sobre a geração perdida. Perdida? Não podemos aceitar tal hipótese, que o nosso maior trunfo, os recursos humanos, as pessoas, não consigam vislumbrar uma vida à medida dos seus investimentos pessoais ou dos seus sonhos. Que tenham de encarar um dia a dia medíocre e sem perspectivas. Se as gerações actualmente no poder estão a empatar-lhes a vida, isso terá de ser encarado sem rodeios: o que se passou aqui e o que se passa para isto acontecer?

A minha perspectiva é um pouco polémica, mas terei a oportunidade de verificar se, na prática, se aproxima ou não da nossa realidade. Procurarei, em próximos posts, analisar a situação das gerações dos 26-35 e dos 36-45 anos. Conto com o feedback de todos os que se interessam pelo assunto, claro!, a começar pelos próprios.

 

 

Leitura relacionada: De Sobre o Tempo que Passa, um post sobre o desafio de "viver em comum" para além da aventura individual: Sete pedacinhos de mais além em domingo de chuva.

 

E ainda: Como lixar o Cidadão Comum, e o país, legalmente, isto é, com as leis que temos - 3 e Os cidadãos enquanto contribuintes, consumidores e eleitores. E a tag novas gerações igualmente no Vozes Dissonantes.

 

E ainda: Do Portugal Contemporâneo, Perdendo o sonho e Empregos mal remunerados; e do Minoria Ruidosa, Da geração rasca à geração perdida.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:47

Do Tempo das Descobertas: Leituras de Dezembro de 2009

Terça-feira, 12.01.10

 

Do Saída de Emergência, este post sobre leituras recentes e promessas futuras. Gostei sobretudo de saber um pouco mais sobre o autor da série Flashforward, que já referi aqui, e muito me surpreende que não esteja a ser acarinhada pelos americanos (o que é se passa? Ficar-se pela primeira temporada? Nem pensem nisso!)

 

 

 

" Leituras de Dezembro de 2009

 

O que lêem os editores? Sim, o que lêem os profissionais da edição que, parecendo que não, decidem o que os restantes portugueses vão ler? Só posso falar por mim, mas acredito que todos os editores tenham dois tipos de leitura: a profissional e a pessoal. Na primeira lêem o que consideram publicar, na segunda lêem o que gostam. Pessoalmente tenho sorte pois muita da minha leitura pessoal acaba no catálogo da editora. Mas muita também não acaba – por mil e uma razões diferentes. É dessa leitura que vos pretendo falar, das leituras invisíveis mas que, de certa forma, ajudam a moldar os meus alicerces e os da Saída de Emergência. Não pretendo que estes textos (que espero mensais), sejam vistos como um exercício de vaidade. Tenho consciência de que estas leituras vão interessar a poucos. Mas para os fãs incondicionais da editora, abro a minha biblioteca…
 
   
Something Wicked This Way Comes de Ray Bradbury

 

Foi-me recomendado pela Gi, a mulher do David Soares, com os maiores elogios à prosa e à história. E tudo se confirmou, este livrinho é um verdadeiro tesouro. Ouvi-o em versão áudio e, maravilhosamente lido, nada se perdeu. Considerado uma obra-prima da literatura de horror, é a história de dois rapazes de treze anos, James e William, e do mal que abraça a sua cidadezinha do interior com a chegada de um estranho circo ambulante. O que faríamos se os nossos mais secretos desejos fossem tornados realidade pelo misterioso chefe do circo? Ray Bradbury, numa voz maravilhosa, fala-nos de inocência, coragem, amizade, reencontro. Um verdadeiro hino à melhor literatura fantástica.

 

Land of the Headless de Adam Roberts

No futuro distante a humanidade levou a religião e as desuniões dela resultantes para o espaço. E, num planeta onde a sociedade segue de forma fundamentalista o Antigo Testamento e o Corão, um poeta é acusado de violar uma mulher. Julgado culpado, é sentenciado à pena máxima: a decapitação. Depois de lhe ser removida a cabeça é equipado com uma válvula no pescoço (por onde pode respirar e alimentar-se), um ordenador (que guarda a sua personalidade e memórias), e equipamento sensorial (visão e audição básicas). Exemplarmente castigado, pode seguir a sua vida. Como seria de esperar, e é essa a sua verdadeira punição, carrega um terrível e manifesto estigma. A sua única forma de sobreviver é alistar-se no exército e seguir para a frente de combate enquanto planeia a vingança contra o homem que acredita ser o responsável pela sua perdição. Land of the Headless tem uma prosa sem mácula e está repleto de grandes ideias. É uma escalpelizarão sublime da condição humana, uma sátira sobre fundamentalismo religioso, intolerância, crueldade, estupidez, mas também uma tocante história de amor, sacrifício e idealismo.

 
The Dying Earth de Jack Vance

Adorava publicar este gigante da literatura fantástica. Mas não sou assim tão masoquista - a Colecção Bang! já tem suficientes gigantes a vender pouco, como é o caso de Michael Moorcock, Fritz Leiber ou Mervyn Peake. Recomendo no entanto a leitura desta fantasia científica onde Jack Vance, através de curtas histórias interligadas, nos transporta para um futuro muito distante. Tão distante que a Terra se prepara para ser engolida pelo sol vermelho e gigante. Uma Terra moribunda onde magia e ciência significam a mesma coisa. The Dying Earth está um pouco datado – afinal, já tem 60 anos – mas Jack Vance escreve tão bem que este clássico envelheceu com elegância e graça.

 
Banda Desenhada


Em Dezembro li Astérix - O Regresso dos Gauleses, Lucky Luck - A Corda do Enforcado, Tintim – As Jóias da Castafiore e Spirou e Fantásio – A Máscara Misteriosa. Leituras um pouco clássicas mas maravilhosamente intemporais. Na última feira do livro completei a minha colecção do Astérix e na próxima deverei completar as restantes (pois é, as feiras dos livros são oportunidades para todos). Também li o novíssimo Blake e Mortimer – A Maldição dos Trinta Denários. Não é um original de Edgar P. Jacobs, mas é muitíssimo bom, e estes dois aventureiros continuam a ser as minhas personagens favoritas de BD.

Mas há mais BD para além da europeia, e a americana está a viver o que penso ser uma autêntica era dourada. Argumentistas inteligentes e ilustradores talentosos surgem nas mais variadas chancelas com novidades surpreendentes a todos os níveis. Este mês fiquei a conhecer The Programme onde Peter Milligan nos apresenta um mundo adulto onde a origem dos super-heróis está ligada à Segunda Guerra mundial e à posterior Guerra Fria. O desenho é de C. P. Smith e, se o seu traço primeiro se estranha, depois entranha-se totalmente. Estou desejoso em deitar as mãos ao segundo volume desta série. Também li o 5º volume de Tom Strong, uma das muitas personagem criadas por esse génio artístico chamado Alan Moore (cujo romance, A Voz do Fogo, a Saída de Emergência terá o prazer de republicar no último trimestre de 2010). Tudo o que li até agora de Alan Moore é, no mínimo, muito bom. E para os fãs de pulp fiction, os livros de Tom Strong são uma delícia para os olhos e para o coração.

 Televisão


Devorei os 10 episódios de Flashforward, a série inspirada no livro de Robert J. Sawyer (que vai sair na Colecção Bang! em Março deste ano). O livro é muito interessante, original e inspirador, e a série, apesar de todas as inevitáveis mudanças, também é excelente. Recomendo sem reservas apesar do público americano não estar a corresponder à série e esta estar em risco, segundo consta, de se ficar pela primeira temporada!

Também ando a rever, poooouco a poooouco, toda a série dos X-Files. Vou na quarta temporada, talvez a melhor até agora. Envelheceu muito bem apesar de ser uma série de género (fc, fantasia e horror).

Outra série que deve tudo aos livros é a Sharpe, baseada na obra de Bernard Cornwell. Com Sean Bean no papel de Richard Sharpe, é de visionamento obrigatório para quem se interessa pela obra de Cornwell ou pelas Guerras Napoleónicas (ou apenas por uma série histórica muito bem interpretada e produzida).

Um abraço e votos de boas leituras (e não só) para Janeiro de 2010

Luis CR [editor]   "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:25

...

Segunda-feira, 04.01.10

 

 

Sacudi meses, anos

décadas de esquecimento

do essencial

 

Estiquei as articulações até ao limite

experimentei os músculos um pouco flácidos

 

Ah, uma corrida para treinar a alma!

para desafiar os sonhos essenciais

essa claridade que primeiro vi

na escalada de outras montanhas

 

Recuperar a agilidade mental e filosófica

a alegria poética!

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:39


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